Usar a pimenta na comida ou para afastar inveja e olho gordo ta longe de ser a principal utilidade do fruto pros pajés da Amazônia. Alguns estudos mostram que o cultivo da pimenta acontece por aqui desde que o mundo é mundo e sua utilidade costuma ser bem variada.

A forma de utilização mais tranquila é a dos Macuxi, que vivem em Roraima. Por lá, andar no mato com fome e sem uma pimenta pode levar ao ataque dos maus espíritos das matas, uns aproveitadores da larica da madrugada.

Outra tradição é que, ao doar uma pimenta a um amigo, é preciso deixá-la em algum lugar para que o outro ache, porque, se ela for dada diretamente na mão, isso pode provocar o fim da amizade em pouco tempo. É a mesma coisa que ir na casa do seu amigo e derrubar seu Papai Noel Morreu no chão e quebrar. Puta mancada, meu!

Na aldeia dos Wapichana, quem morre por ataque de uma figura mística chamada Canaimé, tem colocado sob o túmulo diversas pimentas, para que ele não venha completar o serviço, que significa comer os restos do corpo através de animais como tatu, tamanduá, morcego e até cachorro.

Mas calma lá, algumas tribos usam a pimenta como recurso medicinal. Os Macuxi, Wapichana e Taurepang do lavrado também usam a malagueta para curar inflamações no zóio – diferente do nosso Colírio, que queimaria até a alma-, febre e até malária. Em compensação, a danada também serve pra colocar os indiozinhos na linha. Quando eles desobedecem, os pais cortam a pontinha da malagueta e colocam no ânus da criançada (ai!) para que elas fiquem obedientes. Vê se não vai fazer isso com seu filho, hein?

Essa mesma prática é tradição dos Macuxi para tornar os homens bravos guerreiros. Eles também fazem cortes com lâminas de pedras pelo corpo dos adolescentes, em seguida, fazem uma pasta macerada com folhas e pimenta malagueta, passando a mistura pelos machucados. Nessa hora, eles precisam sair correndo até o rio mais próximo para aliviar a dor.

Para os Baniwa, o cultivo da pimenta já se tornou até negócio com a produção comercial do Jequitaia, uma farofa feita com algumas das 74 espécies de pimentas amazônicas, que são secas, moídas e misturadas a sal. O sabor é forte e já conquistou alguns grandes chefs brasileiros, como Alex Atala.

As primeiras lendas que contam sobre a utilização da pimenta por essa tribo mostram que ela foi usada pela primeira vez quando o jovem indío Ñapirikoli utilizou a pimenta para cozinhar um peixe cru que tinha esporão e conseguiu neutralizar o perigo do alimento. Em outro momento, Ñapirikoli usou a pimenta para escapar do estômago de uma cobra. Pela bravura, tenho certeza de que ele droparia nosso molho brasileiríssimo e com picância insana Samba do Crioulo Doido.

Desde então a pimenta foi associada à proteção e utilizada nas celebrações que marcam a passagem para a vida adulta dos homens e mulheres da tribo.

E você, pequeno gafanhoto, usa a pimenta pra quê?

 

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