Implantação de chips no corpo que permitem abrir a porta de casa com um toque, bebês imunes à AIDS e até um corpo musculoso sem praticar exercícios. Este é o Fantástico Mundo dos Biohackers.

Em constante crescente nos Estados Unidos devido a leis mais flexíveis, o biohacking acontece desde manipulações feitas em garagens até startups do Vale do Silício e vem causando polêmica e levantando a discussão: será que podemos brincar de Deus?

A prática consiste no “hackeamento” da configuração natural do corpo humano, animais e plantas em busca do aprimoramento de alguma característica ou cura e prevenção de doenças. Entre as gigantes tecnológicas, a área mais promissora é a longetividade e bilhões estão sendo investidos para prolongar a vida humana.

O executivo Dave Asprey, que atuava na área de segurança digital é um dos adeptos da autoexperimentação para melhorar o próprio corpo e a mente, buscando formas de viver até os 180 anos. Uma das empresas da Alphabet (que detém o Google) recebeu fundos de bilhões para estudar uma forma de frear o envelhecimento.

Biohackers de garagem

O método Crispr (que corta uma parte do DNA) é a principal maneira de se manipular informações genéticas e tem como defensor o controverso biofísico Josiah Zayner, CEO de uma empresa chamada The Odin. Sem permissão para exercer práticas médicas, ele está sob investigação das autoridades da Califórnia.

Tudo porque Zayner ficou mundialmente conhecido após vender para cidadãos comuns kits “faça você mesmo” de experimentação genética em plantas, animais e até humanos. Ele entrou pros holofotes em 2017, quando, em um auditório lotado com transmissão ao vivo injetou em si mesmo o DNA da ferramenta de edição genética CRISPR-Cas9, com o objetivo de desenvolver mais músculos em seu braço.

O efeito desejado seria a inibição do gene miostatina, que diminui o crescimento dos músculos. Até hoje, não houve evidências de que o biohacker conseguiu atingir o resultado, mas ele mesmo afirmou que foi um ato simbólico, e que a quantidade injetada não faria diferença.

O fato de aplicar em si mesmo experiências é permitido pela agência regulatória americana (FDA), mas o envio de kits e pesquisas não autorizadas preocupa as autoridades. Enquanto isso, para Zayner, a distribuição da tecnologia é um serviço social, que permite às pessoas e pesquisadores desenvolver curas e inovações, já que o governo cobra caríssimo pelas tecnologias de ponta e até por planos de saúde básicos.

Vale tudo em nome da ciência?

O documentário Seleção Artificial mostra o trabalho de Zayner e outros biohackers e leva a uma reflexão ética sobre o tema. O mais preocupante acontece quando a startup Ascendance Biomedical compra os kits do biofísico para fazer experimentos com um homem soropositivo.

O objetivo seria aplicar a tecnologia Crispr com anticorpos N6 e reduzir a carga viral do “cobaia” Tristan Roberts, que assumiu os riscos mesmo sabendo que o vírus poderia sofrer mutações. Isso inviabilizaria sua cura quando a pesquisa estivesse concluída.

Roberts após fazer o exame de sangue, com Aaron Traywick, CEO da Ascendance Biomedical. (Reprodução/BBC)

Com divulgação em vídeos ao vivo da aplicação das injeções e do resultado de exames, o jovem voluntário teve um aumento viral, o CEO da empresa morreu durante um tratamento alternativo e Zayner viu o tamanho da responsabilidade que tem nas mãos distribuindo os kits e incentivando biohackers.

Bebês de laboratório

A inseminação artificial dá a pesquisadores a chance de manipular o DNA humano, alterando genes, corrigindo problemas genéticos, deficiências, prevenindo doenças e até vindo a permitir no futuro que os pais escolham o sexo, a cor dos olhos e até o QI dos seus bebês.

Em 2018, um médico chinês declarou ter sido o primeiro a modificar geneticamente duas meninas gêmeas, que nasceram naquele ano. He Jiankui disse que alterou um gene nos embriões antes de implantá-los no útero da mãe, com o objetivo de tornar os bebês resistentes à infecção pelo HIV. No entanto, nenhum estudo foi publicado, nem evidências foram apresentadas que provem que ele realmente fez isso.

A prática de alteração genética de embriões foi proibida em diversos países, inclusive nos Estados Unidos, mas na China havia brechas na regulamentação que permitiram a experiência, embora uma centena de pesquisadores tenham repudiado a atitude do médico e a classificado como louca e insana.

Ele afirmou que não houve qualquer efeito colateral nas crianças, mas a preocupação da comunidade médica é a mutação dos descendentes e que isso abra precedentes para produção desenfreada de “superbebês” desenvolvidos para atividades atléticas ou intelectuais, ao invés da tecnologia ser utilizada para prevenção de condições médicas que seriam irreversíveis após o nascimento.

No final do ano passado o médico He Jiankui foi condenado a três anos de prisão e multa pela experiência.

Tecnologia na pele

Conhecidos como grinders, estes são os biohackers que incorporam tecnologias em seus corpos, como o professor de cibernética Kevin Warwick, que implantou um sistema de radiofrequência em seu braço para apagar e acender luzes com um estalar de dedos.  Com milhares de adeptos nos EUA, há casos de implantes para ligar carros, recarregar cartões de transporte público, fazer pagamentos e destrancar fechaduras.

Tem até mesmo um biohacker que implantou uma antena na cabeça para transformar as cores em sons na sua mente; outro, coloca uma substância no olho para enxergar no escuro qualquer objeto a 50 metros de distância. O Fantástico fez uma reportagem com eles.

Neil Harbisson se autodenomina um ciborgue e implantou uma antena na cabeça. (Reprodução/Globo)

De fato, além da preocupação com as cobaias, há a incerteza do que essas modificações podem causar no futuro e nas próximas gerações. Por isso, o tema ainda deve ser alvo de discussão por muitos anos na classe médica e tecnológica.

Mas quem sabe a gente encontra algum Exterminador do Futuro por aí…

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